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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Visões de S. João Bosco
* O PARAÍSO CELESTE - 3





* * * * * * *



O Paraíso Celeste


Visão de S. João Bosco


= 3.ª Parte =


Continua e conclui assim
a visão sobrenatural de
S. João Bosco com
S. Domingos Sávio

sobre o Paraíso:


Então, recorda Domingos Sávio a D. Bosco:
«Se queres que te responda a mais alguma coisa, apressa-te»...

— Quanto ao futuro, o que me dizes? — interroga Dom Bosco.
Com respeito ao futuro, no próximo ano (de 1877) terás que sofrer uma grande dor; seis mais dois, dos que te são mais caros, serão chamados por Deus à Eternidade.
Mas consola-te, pois serão transplantados do campo do mundo para os jardins do Paraíso. Serão coroados.
Não temas, pois o Senhor te ajudará e te mandará outros filhos igualmente bons.

— Paciência! E no que se refere à Congregação salesiana?
— No tocante à Congregação, fica sabendo que Deus te prepara grandes acontecimentos.
No ano próximo, surgirá para ela uma aurora de glória tão esplêndida, que iluminará como um relâmpago os quatro cantos do mundo; do oriente ao poente, do norte ao sul. Grande glória lhe está preparada.
Tu deves zelar para que o carro, no qual vai o Senhor, não seja afastado pelos teus, fora das suas guias e dos seus caminhos.

Se os teus sacerdotes souberem bem conduzi-lo e se forem dignos da alta missão que lhes foi confiada, esplêndido será o futuro e imensas serão as pessoas que salvarão.
Mas com uma condição:
Que os teus filhos sejam devotos da Santíssima Virgem, e saibam, todos os que vivem em tua casa, conservar a virtude da Castidade, tão agradável aos olhos de Deus.

— Gostaria agora que me falasses algo sobre a Igreja em geral.
— Os destinos da Igreja estão nas mãos de Deus Criador.
O que Ele determinou em Seus infinitos decretos, não te posso revelar.
Tais arcanos reserva-os Ele exclusivamente para Si, e deles não participa nenhum dos espíritos criados.

— E sobre o Papa Pio IX?
— O que posso dizer-te, é que o Pastor da Igreja não terá que sustentar ainda longos combates na Terra. Poucas são as batalhas que ainda lhe resta vencer.
Brevemente, será arrebatado do seu trono, e o Senhor dar-lhe-á a merecida recompensa.
O resto já é bem sabido. A Igreja não perece...
Tens ainda algo para perguntar-me?

— E quanto a mim? — disse-lhe.
— Oh, se soubesses por quantas vicissitudes terás ainda que passar!
Mas apressa-te, que já muito pouco tempo resta-me para falar contigo.

Com ardor, estendi então as mãos para tocar naquele santo Filho; mas as suas mãos pareciam aéreas, não podendo senti-las...
«Que loucura! Que estás fazendo?» — disse-me Sávio, sorrindo.

— Temo que te vás — exclamei. — Mas não estás aqui com o teu corpo?
— Com o corpo, não. Recuperá-lo-ei no último dia.

— O que são, então, esses traços que me fazem ver em ti a figura de Domingos Sávio?
— Quando, por permissão Divina, uma alma separada do corpo aparece diante de algum mortal, apresenta-se com a forma exterior do corpo que em vida animou, com todas as suas feições exteriores, embora muito embelezadas, e assim as conserva até que volte a unir-se a ele, no dia do Juízo universal.
Só então levá-lo-à consigo para o Paraíso.
É por isso que te parece que tenho mãos, pés e cabeça; mas tu não podes segurar-me, porque sou puro espírito.
Esta é só uma forma exterior, pela qual me podes conhecer.


— Compreendo — respondi —, mas escuta ainda uma pergunta:
Os meus jovens estão todos no recto caminho da salvação?
Diz-me alguma coisa, para que possa bem dirigi-los.
Os filhos que a Divina Providência te confiou, podem ser divididos em três categorias.
Vês estas três listas? Olha-as...

E apresentou-me a 'primeira lista':
Encabeçava-a a palavra "Invulnerati" [Ilesos],
e continha os nomes daqueles que não mancharam a inocência com culpa alguma, aos quais o Demónio não conseguiu ferir.
Eram em grande número esses bem-aventurados sadios, e vi-os todos.
A muitos já conhecia; a outros era a primeira vez que os via, e certamente viriam para o Oratório nos anos futuros.
Caminhavam direitos por um caminho estreito, apesar de serem alvo de flechas, espadagadas e lançadas, que de todos os lados choviam sobre eles.
Essas armas formavam como que uma sebe, ao longo das duas bordas do caminho, combatendo-os e molestando-os, sem entretanto feri-los.

De seguida, Sávio entregou-me a 'segunda lista', cujo título era "Vulnerati" [feridos]; ou seja, aqueles que haviam estado na inimizade de Deus, mas que, uma vez postos de pé, haviam curado as suas feridas, arrependendo-se e confessando-se.
Eram em maior número que os primeiros, e haviam sido feridos nos atalhos da vida, pelos inimigos que os flanqueavam durante a sua viagem.
Li a lista e vi-os a todos. Muitos iam curvados e desanimados.

Sávio tinha ainda na mão a 'terceira lista'...
Encabeçava-a a epígrafe:
"Lassati in via iniquitatis" [Caídos na via da iniquidade].
Nela, estavam escritos os nomes dos que se encontravam na desgraça de Deus!

Eu estava impaciente para conhecer esse funesto segredo, pelo que estendi a mão...

Mas Sávio disse-me, com vivacidade:
«Não, espera um momento, e ouve:
Se abrires agora essa folha, dela sairá um tal mau cheiro que nem tu, nem eu, poderemos suportar.
Os Anjos têm que se retirar com asco e horror, e o próprio Espírito Santo sente repugnância pela horrível hediondez de tais pecados».

— Mas como pode ser isso — observei —, se Deus e os Anjos são impassíveis? Como podem sentir o mau cheiro da matéria?
— Quanto melhores e mais puras são as criaturas, tanto mais se acercam dos Espíritos celestiais;
pelo contrário, quanto pior, mais desonesto e torpe é alguém, tanto mais se afasta de Deus e dos Anjos, os quais, por sua vez, se afastam dele, por se ter convertido num objecto de náusea e repugnância.


Passou-me então essa 'terceira lista'...
«Toma-a — disse ele —, abre-a, e aproveita-te dela para bem dos teus jovens.
Mas não te esqueças do ramalhete que te dei; que todos o tenham e conservem»...

Dito isto, depois de entregar-me a 'última lista', Domingos Sávio logo retirou-se apressadamente do meio dos seus companheiros, como se estivesse fugindo de algo.

Abri então a 'terceira lista', mas não vi nenhum nome escrito...
Porém, no mesmo instante, foram-me apresentados de chofre todos os indivíduos nela inscritos, como se na realidade eu visse as suas pessoas.
Com quanta tristeza observei todos eles!
A maior parte eu conhecia, pois pertence ao Oratório e aos demais colégios salesianos.
Vi muitos que parecem bons, que até pareciam os melhores dentre os companheiros,
mas infelizmente não o são!

Efectiva e tragicamente, no acto de abrir a 'terceira lista', espalhou-se em meu redor um cheiro tão insuportável e nauseabundo, que logo me vi assaltado por uma terrível dor de cabeça, e por tantas ânsias e vómitos, que me parecia estar a morrer!

Entretanto, obscureceu-se o ambiente, e logo desapareceu a visão, nada mais eu vendo do anterior e maravilhoso espectáculo.
Ao mesmo tempo, ziguezagueou um raio e ressoou um trovão no espaço, tão forte e terrível que acordei sobressaltado...

Esse mau odor penetrou nas paredes e infiltrou-se nas minhas vestes, de tal forma que, muitos dias depois, ainda me parece sentir tão horrível pestilência.
De tal modo o pecado é fétido perante os olhos de Deus, e até mesmo o nome do pecador!
Agora mesmo, só de recordar aquele mau odor, vêm-me calafrios, sinto-me sufocado e revolve-se-me o estômago.

Em Lanzo, onde me encontrava, comecei a interrogar de cá e de lá alguns rapazes, e pude certificar-me de que o sonho não me havia enganado.
É, pois, uma graça do Senhor, que me deu a conhecer o estado de alma de cada um de vós; mas disso nada direi em público.

Muitas outras explicações ainda haveria de dar, mas reservo-as para uma outra noite.
Por agora, só me resta desejar-vos uma boa noite...


O facto de, no sonho, ter visto como maus certos jovens, que eram geralmente considerados os melhores da casa, fez com que Dom Bosco, de início, admitisse a hipótese disso poder ter sido apenas uma ilusão.
E assim, prudentemente, começou a chamar alguns rapazes para uma conversa particular, pois queria certificar-se bem da natureza do sonho.
Por esse mesmo motivo, não se apressou a narrar logo o sonho, mas esperou uns 15 dias, quando se sentiu bem seguro de que essa visão provinha realmente de Deus.

O tempo ainda haveria de lhe trazer outras confirmações de profecias por ele contempladas.
A primeira delas, e a mais importante, dizia respeito ao número de seus filhos que morreriam no ano de 1877, discriminados em dois grupos: seis, mais dois.
Naquele ano, efectivamente, os registos do Oratório assinalaram com a costumeira cruz, sinal de falecimento, os nomes de seis rapazes e dois clérigos.

A segunda profecia anunciava para a Sociedade Salesiana, em 1877, uma aurora tão esplêndida que faria luz sobre os quatro cantos do mundo.
Com efeito, naquele ano, fizeram entrada, no panorama da Igreja, a Associação dos Cooperadores Salesianos e o Boletim Salesiano.
Eram duas instituições que haveriam de levar até os confins da Terra o conhecimento e a prática do espírito de Dom Bosco.

A terceira profecia dizia respeito ao final, relativamente próximo, da vida de Pio IX.
De facto, esse Papa deixou de viver catorze meses decorridos, depois do sonho.

A última profecia foi deveras amarga para Dom Bosco:
"Oh, se soubesses por quantas vicissitudes terás ainda que passar!"
Realmente, nos onze anos e dois meses que ainda durou a sua vida, lutas, fadigas e sacrifícios não lhe deram tréguas, até ao último momento.

A Delegacia da Polícia de Borgo Dora era regida, aquando do sonho, por um senhor que tinha diversas pessoas conhecidos no Oratório.
Tendo ouvido narrar o sonho, ficou muito impressionado com a previsão das oito mortes, supramencionadas.
Durante todo o ano de 1877, observou com atenção se a previsão realmente se cumpria.

Quando soube que, no último dia do ano, se realizara o oitavo óbito, resolveu abandonar o mundo, fez-se salesiano e trabalhou muito, na Itália e também na América.
Foi o Padre Ângelo Piccono, cujo nome permanece ainda na memória de muitos.




* * * * * * *


Fonte geral da corrente série:
. Igreja Online
.. O Sonho de Dom Bosco - Parte I - Céu

Salesianos Dom Bosco (Portugal)


Adaptação:
Nova Evangelização
Católica

sábado, 1 de maio de 2010

Visões de S. João Bosco
* O PARAÍSO CELESTE - 2






* * * * * * *


O Paraíso Celeste


Visão de S. João Bosco

= 2.ª Parte =



Ao pronunciar essas últimas palavras, parecia que Dom Bosco estava fazendo grande esforço para encontrar as expressões adequadas; e fê-lo com um gesto indescritível e um tom de voz que comoveu a todos, parecendo ter-se cansado nesse esforço para encontrar os termos que exprimissem inteiramente sua ideia.
Após breve pausa, ele prosseguiu:

Também resplandeciam de luz todos os outros que o acompanhavam.
Vestiam-se de modos diversos, mas sempre maravilhosos; uns mais, outros menos ricos; uns de uma, outros de outra forma; num, dominava determinada cor; noutro, dominava outra; e cada uma das vestes tinha um significado que ninguém saberia compreender.
Mas todos tinham na cintura uma faixa vermelha...

Eu continuava a observar e pensava:
"Que significará isso? Como vim parar neste local?"...
E não sabia aonde me encontrava.
Fora de mim, temeroso pela reverência que tudo aquilo me inspirava, não me atrevia a dizer nada.
Também os outros continuavam silenciosos.
Por fim, Domingos Sávio começou a falar:

— Por que estás aí mudo, e como que aniquilado?
Não és mais aquele homem que de nada tinha medo, que enfrentava intrépido as calúnias, as perseguições, os inimigos, as angústias e os perigos de toda a espécie?
Onde está tua coragem? Por que não falas?

Com grande dificuldade, respondi, quase balbuciando:
— Não sei o que dizer... Mas, não és tu Domingos Sávio?
— Sim, sou; já não me reconheces?

— E como te encontras aqui? — acrescentei, sempre confuso.
Sávio, então respondeu, com afecto:
— Vim aqui para falar-te, como tantas vezes nos falámos na Terra!
Não recordas quanto me amavas, quantas provas de amizade e quantas demonstrações de benevolência me deste?
E eu por acaso não correspondi aos teus desvelos?
Como era grande a minha confiança em ti!
Por que motivo, então, tremes?
Coragem! Pergunta-me alguma coisa.

Então, recobrando o ânimo, disse-lhe:
— Tremo, porque não sei onde me encontro.
— Estás no local da felicidade — respondeu Sávio —, onde se gozam todas as alegrias, todas as delícias.

— É este, pois, o prémio dos justos?
— Não, certamente. Aqui não se gozam os bens eternos, mas só, ainda que em medida grande, os temporais.

— Mas então, são naturais todas essas coisas?
— Sim, se bem que embelezadas pelo Poder de Deus.

— E a mim, que me parecia que isto era o Paraíso! — exclamei.
— Não, não — respondeu Sávio. — Nenhuns olhos mortais podem ver as belezas eternas.

— E essas músicas — prossegui, perguntando —, são as harmonias de que gozais no Paraíso?
— Não, já te disse que não.

— São sons naturais?
— Sim, são naturais, mas aperfeiçoados pela Omnipotência de Deus.


— E esta luz, que sobrepuja a luz do Sol, é luz sobrenatural? É a luz do Paraíso?
— É luz natural, embora avivada e aperfeiçoada pela Omnipotência Divina.
— E eu não poderia ver um pouco de luz sobrenatural?
— Ninguém pode vê-la, enquanto não chegar a hora de ver a Deus "sicut est" [tal como Ele é].
O menor raio dessa luz tiraria, no mesmo instante, a vida de um homem, porque ela não é suportável pelas forças humanas.

— E poderia haver uma luz natural ainda mais bela do que esta?
— Se soubesses! Se visses somente um raio de luz natural, elevada a um grau superior a este, ficarias fora de ti.

— E não posso ver, ao menos, um raio dessa luz de que falas?
Sim, podes vê-lo, e terás a prova do que te digo; abre os olhos...

— Já os tenho abertos — respondi.
— Olha bem, no fundo desse mar de cristal...

Levantei a vista, e apareceu de repente no Céu, a uma distância imensa, uma instantânea centelha de luz, subtilíssima como um fio, mas tão brilhante, tão penetrante, que os meus olhos não puderam resistir.
Logo fechei-os, e lancei um grito tão forte que despertou o Padre Lemoyne (aqui presente), que dormia num quarto próximo...

Assustado, ele perguntou-me, na manhã seguinte, o que me acontecera de noite, para estar assim tão agitado.
Aquele fiozinho de luz era cem milhões de vezes mais claro que o Sol, e o seu fulgor bastaria para iluminar todo o Universo criado.
Após alguns instantes, consegui abrir os olhos, e perguntei a Domingos Sávio:

— Isso que vi, será talvez um raio divino?
Sávio respondeu:
— Não, não é luz sobrenatural; se bem que, comparada com a terrestre, seja tão superior em brilho.
Não é senão luz natural, assim avivada pelo Poder de Deus.
E ainda que imaginasses uma imensa zona de luz semelhante à centelhazinha que viste lá no fundo, rodeando todo o Mundo, nem por isso formarias para ti uma ideia dos esplendores do Paraíso.

— E vós, de que gozais, pois, no Paraíso?
— Ah, é impossível revelar-te tais coisas celestiais!
O que se goza no Paraíso nenhum homem mortal pode sabê-lo, enquanto não deixar esta vida e se reunir ao seu Criador.
Basta dizer que se goza o Próprio Deus.

Entretanto, eu já me recobrara plenamente deste meu primeiro aturdimento, pois contemplava absorto a beleza de Domingos Sávio, e com franqueza perguntei-lhe:

— Por que tens essa veste tão alva e deslumbrante?
Sávio calou-se, sem dar mostras de querer responder.
Mas o coro retomou então as suas harmonias e cantou, acompanhado de todos os instrumentos:

Ipsi habuerunt lumbos praecinctos et dealbaverunt stolas suas in Sanguine Agni [Eles tiveram os rins cingidos e purificaram as suas vestes no Sangue do Cordeiro].

— E por qual motivo – voltei a perguntar quando cessou o canto – tens essa faixa vermelha na tua cintura?

Nem sequer desta vez Sávio respondeu, mas antes fez sinal de que não queria fazê-lo.
Então, o Padre Alasonatti, em solo, pôs-se a cantar:

Virgines enim sunt, et sequuntur Agnum quocumque ierit [São virgens e seguirão o Cordeiro aonde quer que vá].


* * * * *


Compreendi, então, que a faixa encarnada, cor de sangue, era símbolo dos grandes sacrifícios feitos, dos violentos esforços e do quase martírio sofrido para conservar a virtude da Pureza; e que, para manter-se casto na presença do Senhor, ele teria estado pronto a dar a vida, se as circunstâncias o houvessem requerido; e que também era símbolo das penitências que limpam a alma da culpa.
A brancura e o esplendor da túnica significavam a inocência baptismal conservada.

Mas eu, atraído pelos cantos e contemplando todas aquelas falanges de jovens celestiais, ordenados atrás de Domingos Sávio, perguntei-lhe:

— Quem são estes que te rodeiam?
E, dirigindo-me aos demais, interroguei-os:
Como é que estais todos tão refulgentes?

Sávio continuou calado, mas todos os jovens logo puseram-se a cantar:
Hi sunt sicut Angeli Dei in Caelo [Estes são como Anjos de Deus no Céu].

Notava, entretanto, que Sávio parecia ter proeminência sobre aquela multidão, que a respeitosa distância se encontrava, uns dez passos atrás dele; e então perguntei-lhe:

— Diz-me, Sávio: Sendo tu o mais jovem entre os muitos que te seguem, e dos que morreram em nossas casas, por que vais tu assim à frente deles, precedendo-os? Por que és tu que falas, enquanto eles se calam?
— Eu sou o mais velho de todos.

— Não, muitos outros te superam em anos.
— Eu sou o mais antigo do Oratório — repetiu Domingos Sávio —, porque fui o primeiro a deixar o mundo, indo para a outra vida.
Além disso, "legatione Dei fungor"
[por mandato de Deus].

Essa resposta indicava-me o motivo da visão, pois ele era um embaixador de Deus.
— Então — disse-lhe —, falemos do que agora mais nos importa.
— Sim, e pergunta-me já o que ainda desejas saber.
As horas passam, e poderia acabar-se o tempo que me foi concedido para falar-te, pelo que já não mais poder-me-ias ver.

— Ao que parece, tens algum assunto de suma importância para me comunicares.
— Que irei dizer-te eu, miserável criatura? — acrescentou Sávio, com profunda humildade. — Recebi do Alto a missão de falar-te, e por isso vim.

— Então — pedi-lhe — fala-me do passado, do presente e do futuro do nosso Oratório. Fala alguma coisa dos meus queridos filhos, fala da minha Congregação.
— A respeito da Congregação, muito teria que te comunicar.

— Revela-me, pois, o que sabes: Fala-me do passado.
— O passado recai todo sobre ti.

— Terei feito alguma das minhas... [algum pecado]?
— Quanto ao passado, digo-te que a tua Congregação já fez muito bem. Vês lá em baixo aquele número interminável de jovens?

— Vejo-os – respondi. — Como são numerosos! E como parecem felizes!
— Pois, olha o que está escrito na entrada do Jardim.


— Está escrito: "Jardim Salesiano".
— Pois bem — prosseguiu Sávio —, todos eles foram salesianos:
Ou foram educados por ti, ou contigo tiveram alguma relação; ou foram salvos por ti e pelos teus sacerdotes e clérigos, ou por outros que encaminhaste por via da sua vocação.
Conta-os, se fores capaz. O seu número, porém, seria mil vezes maior, se maior tivesse sido a tua Fé e a tua confiança no Senhor.

Lancei um suspiro, sem saber o que responder por tal reprimenda, mas disse de mim para comigo: 'Daqui por diante, procurarei ter essa Fé e essa Confiança'...
Depois, perguntei-lhe:

— E quanto ao presente?
Sávio apresentou-me, então, um magnífico ramalhete, que tinha nas mãos.
Nele havia: rosas, violetas, girassóis, gencianas, lírios, sempre-vivas, e entre as flores, espigas de trigo.

Ofereceu-mo e disse:
— Observa-o...

— Vejo-o, mas nada entendo — respondi.
— Dá este ramalhete aos teus filhos, para que possam oferecê-lo ao Senhor, quando chegar o momento; procura que todos o tenham; que a nenhum deles lhes falte, nem lho deixem tirar.
Podes estar certo de que, com ele, terão o suficiente para serem felizes.

— Mas, o que significa esse ramalhete de flores?
— Consulta a Teologia; ela to dirá e te dará a explicação.

— Estudei Teologia, mas não saberei como tirar dela o significado do que me apresentas.
— Tens a estrita obrigação de saber tudo isso.

— Por favor, tira-me desta ansiedade, explicando-me tu mesmo!
— Vês estas flores? Representam as virtudes que mais agradam ao Senhor.

— E quais são elas?
— A rosa é símbolo da Caridade; a violeta, da Humildade; o girassol, da Obediência; a genciana, da Penitência e Mortificação; as espigas, da Comunhão frequente; o lírio, indica a bela virtude da qual está escrito: "Erunt sicut Angeli Dei in Caelo", a Castidade. E a sempre-viva significa que todas essas virtudes devem durar sempre, pois ela simboliza a Perseverança.

— Ora bem, meu caro Sávio, tu, que durante a vida praticaste todas essas virtudes, diz-me: O que foi que mais te consolou na hora da morte?
— O que te parece que possa ter sido? — interrogou Sávio.

— Foi, talvez, teres conservado a bela virtude da Pureza.
— Não, não foi só isso.

— Alegrou-te, talvez, teres a consciência tranquila?
— Isso é bom; porém, não é o melhor.

— Por acaso, o teu consolo terá sido a esperança do Paraíso?
— Não, não.

— Provavelmente, o facto de haveres entesourado muitas boas-obras?
— Também não.

— Então, qual foi o teu maior consolo da última hora? — perguntei, entre confuso e suplicante, vendo que não conseguia adivinhar o seu pensamento.

— O que mais me confortou, no transe da morte, foi a assistência da poderosa e amável Mãe do Salvador.
Diz isto aos teus filhos: Que não se esqueçam de invocá-La frequentemente, durante a vida...

(Continua)





* * * * * * *



Fonte: Igreja Online

# Visão de D. Bosco sobre o PARAÍSO - 1 e 2 (feed)

& Autocomentário:
IGREJA MILITANTE E IGREJA TRIUNFANTE


Nova Evangelização Católica

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Visões de S. João Bosco
* O PARAÍSO CELESTE - 1





* * * * * * *


O Paraíso Celeste


Visão de S. João Bosco

= 1.ª Parte =



O Céu, na noite de 22 de Dezembro (de 1876), ficou memorável no Oratório de Dom Bosco.
A hora da Oração foi um pouco antecipada.
No Locutório, reuniram-se os estudantes, os artesãos e todas as pessoas da casa.
Dom Bosco tinha prometido falar no Domingo anterior, mas não pudera fazê-lo.
Imagine-se a expectativa geral.
Subiu à cátedra, saudado por palmas entusiásticas, como acontecia sempre que dava, daquele modo, a "boa noite" à comunidade inteira.
Fez o sinal de que ia falar, e imediatamente fez-se completo silêncio...


Na noite em que estive em Lanzo - iniciou D. Bosco -, chegada a hora de repousar, aconteceu-me que tive um sonho especial, que não tem nenhuma relação com sonhos normais.
São coisas muito estranhas.
Mas para os meus filhos não tenho segredos; abro-lhes inteiramente o coração.

Pensai o que quiserdes desse sonho.
Como diz S. Paulo, «quod bonum est tenete» [conservai o que é bom], se alguma coisa encontrardes nele que seja de proveito para a vossa alma, sabei aproveitar-vos disso.
Quem não quiser acreditar-me, que não acredite, pouco importa; mas que ninguém jamais zombe das coisas que vou dizer.

Peço-vos ainda que não o conteis, nem o comuniqueis por escrito, aos que não são desta casa.
Aos sonhos, pode dar-se a importância que os sonhos merecem, e os que não conhecem a nossa intimidade poderiam formar juízos erróneos, vendo as coisas de modo diferente do que são na realidade.
Não sabem eles que sois meus filhos, e que sempre vos digo tudo o que sei, e às vezes até mesmo o que não sei (risos gerais).

Mas o que um pai manifesta aos seus filhos queridos, para o bem deles, deve ficar entre o pai e os filhos, não passando adiante.
E ainda por outro motivo: É que em geral, quando se contam tais coisas por fora, ou se desfiguram os factos, ou se conta apenas uma parte deles, sendo por isso mal interpretados; de onde nasce dano, pois o mundo desprezaria o que não deve ser desprezado.

Deveis saber que, ordinariamente, temos sonhos quando dormimos.
Ora, na noite de 6 de Dezembro, enquanto eu estava no meu quarto, não me recordo bem se lendo, ou se dando voltas pelo aposento, ou se me havia já deitado, comecei a sonhar...



* * * * *


Logo me pareceu estar sobre uma elevação de terreno, ou numa colina, à beira duma imensa planície, cujos confins a vista não alcançava, pois perdiam-se na imensidão.
A planície era toda azulada, como um mar calmo, embora o que eu visse não fosse água, parecendo um cristal límpido e luminoso.
Sob os meus pés, por trás de mim e de ambos os lados, via uma região à maneira dum litoral, à margem do oceano.

Largos e gigantescos caminhos dividiam aquela planície em vastíssimos jardins de indescritível beleza, todos estes repartidos em bosquezinhos, prados e canteiros de flores, de formas e cores variadas.
Nenhuma das nossas plantas pode dar-nos uma ideia daquelas, embora tenham com elas alguma semelhança.
As ervas, as flores, as árvores, as frutas, eram vistosíssimas e de belíssimo aspecto.
As folhas eram de ouro; os troncos e ramos, de diamante; correspondendo tudo o mais a tal riqueza.
Era impossível contar as diferentes espécies de plantas, e cada uma resplandecia com uma luz própria.

No meio daqueles jardins e em toda a extensão da planície, eu contemplava incontáveis edifícios de ordem, beleza, harmonia, magnificência e proporções, tão extraordinárias, que para a construção de um só deles me parecia que não seriam suficientes todos os tesouros da Terra.
E eu dizia para mim mesmo:
Se os meus meninos tivessem uma destas casas, como gozariam, que felizes seriam e com quanto gosto viveriam nela!
Isto pensava eu, vendo externamente os palácios.
Qual não deveria ser então a sua magnificência interior!


Enquanto contemplava, extasiado, tão estupendas maravilhas que adornavam aqueles jardins, eis que chega aos meus ouvidos uma música dulcíssima, de tão agradável e suave harmonia que nem posso dar-vos dela a mínima ideia.
As músicas do Padre Cagliero e de Dogliani nada têm de musical, se comparadas àquela!
Eram cem mil instrumentos, produzindo cada qual um som diverso do outro, enquanto todos os sons possíveis difundiam pelos ares as suas ondas sonoras.
A tão maravilhosos sons, somavam-se ainda os inebriantes coros de cantores.

Vi então uma grande multidão de pessoas que se encontrava naqueles jardins e se regozijava com com imensa alegria e satisfação.
Uns tocavam e outros cantavam; e cada voz, cada nota, produzia o efeito de mil instrumentos reunidos, todos diferentes uns dos outros.
Ao mesmo tempo, ouviam-se os diversos graus da escala harmónica, desde os mais baixos até aos mais agudos que se possam imaginar, mas todos em perfeita harmonia.
Ah, para descrever-vos tal harmonia, não existem comparações humanas!

Via-se, pelo rosto dos felizes habitantes do jardim, que os cantores não só experimentavam extraordinário prazer em cantar, mas ao mesmo tempo sentiam imenso gozo em ouvir cantar os demais.
Quanto mais um cantava, mais se lhe acendia o desejo de cantar, e quanto mais ouvia, mais desejava ouvir.
Era isto o que eles cantavam:

«Salus, honor, gloria Deo Patri Omnipotenti!... Auctor saeculi, qui erat, qui est, qui venturus est iudicare vivos et mortuos, in saecula saeculorum».
[Saudação, honra e glória a Deus Pai Omnipotente!... Autor do tempo, Aquele que era e que é, e que virá a julgar os vivos e os mortos, por todos os séculos dos séculos].


Enquanto ouvia, atónito, essa celestial harmonia, vi aparecer uma imensa multidão de jovens, muitos dos quais eu conhecia, pois tinham estado no Oratório e noutros nossos colégios; mas era-me desconhecida a maior parte deles.
A multidão interminável dirigia-se para mim.

À sua frente, vinha (São) Domingos Sávio, e logo atrás dele vinham o Padre Alasonatti, o Padre Chiala, o Padre Giulitto, e muitos outros sacerdotes e clérigos, cada um deles conduzindo uma secção de jovens.
E eu perguntava a mim mesmo: Estou a dormir, ou estou acordado?
Batia as mãos uma na outra e tocava no meu peito, para certificar-me de que era realidade o que então via.

Chegada diante de mim toda aquela multidão, parou à distância de oito ou dez passos.
Brilhou então um relâmpago de luz mais viva; cessou a música e fez-se um silêncio profundo.
Todos os jovens estavam tomados pela maior alegria, que lhes transparecia no olhar, e nos seus rostos via-se a paz de uma felicidade perfeita.
Olhavam-me com um suave sorriso nos lábios, e parecia que desejavam falar, mas não falavam.

Então, adiantou-se Domingos Sávio, apenas alguns passos, e ficou tão próximo de mim que, se eu tivesse estendido a mão, certamente tê-lo-ia tocado.
Calava-se e olhava-me, sorrindo. Que belo ele estava!
As suas vestes eram verdadeiramente singulares:
Caía-lhe até aos pés uma túnica alvíssinia, coberta de diamantes e toda bordada de ouro.
Cingia-lhe a cintura uma ampla faixa vermelha, recamada com tantas pedras preciosas que uma quase tocava a outra, e entrelaçavam-se em desenhos tão maravilhosos, apresentando tanta beleza de cores, que eu, ao vê-lo, sentia-me fora de mim por tamanha admiração!

Pendia-lhe do pescoço um colar de flores raras, mas não naturais, parecendo como se as pétalas fossem de diamantes unidos entre si, sobre hastes de ouro; e assim era tudo o mais.
Essas flores refulgiam com luz sobre-humana, mais viva que a do Sol, que naquele instante brilhava com todo o esplendor duma manhã de Primavera.

As flores reflectiam os seus raios sobre o rosto cândido e corado (de Domingos Sávio), de modo indescritível, dando-lhe uma luz de modo tão singular, que nem se distinguiam bem as suas várias espécies.
A cabeça, tinha-a cingida com uma coroa de rosas; e os cabelos caíam-lhe sobre os ombros em ondulantes cachos, dando-lhe um ar tão pulcro, tão afectuoso, tão encantador, que parecia... parecia mesmo um Anjo!

(Continua)






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Fonte: Igreja Online


Nova Evangelização Católica